O Conhecimento como Prática na ITIL® 5
Dentro da ITIL®, desde sua versão 4 e prevalecendo na versão 5, existem 34 artefatos estruturados para nos auxiliar a realizar uma gestão de produtos e serviços digitais de forma mais eficiente e eficaz. A estes artefatos, damos o nome de Práticas.
Segundo a própria ITIL® (versão 5), uma prática é um conjunto de recursos organizacionais estruturados para executar uma tarefa ou alcançar um objetivo específico no gerenciamento de serviços e produtos digitais. Dentre as 34 práticas da biblioteca, divididas em 2 categorias (Práticas de Gerenciamento de Produtos e Serviços e Práticas Gerais de Gerenciamento) destaca-se a Prática de Gerenciamento de Conhecimento, tema central que exploramos em nossos Webinars e neste artigo para a comunidade.
A Prática de Gestão do Conhecimento nos fornece:
- Informações gerais sobre a própria prática;
- Relacionamento da prática com as 4 dimensões da ITIL® (Organização e Pessoas; Informação e Tecnologia; Fluxos de Valor e Processos; Parceiros e Fornecedores);
- Informações sobre a avaliação e o desenvolvimento da capacidade da prática;
- Recomendações para obter sucesso na sua estruturação.
Qual o Objetivo da Gestão do Conhecimento?
A Prática de Gerenciamento de Conhecimento tem como objetivo principal a manutenção e o aprimoramento do conhecimento para uso eficaz, eficiente e conveniente em toda a organização. Ela atua em quatro pilares fundamentais:
- Transformação de Valor: Transformar capital intelectual e informações em valor persistente para colaboradores e consumidores.
- Capacidade de Absorção: Garantir que as pessoas aprendam novos conhecimentos e compartilhem experiências ativamente.
- Decisão e Adaptação: Aprimorar as capacidades de tomada de decisão e fomentar uma cultura de mudança adaptativa.
- Abordagem Data-Driven: Apoiar a estratégia organizacional por meio de dados e insights em todos os níveis.
O Impacto em Cascata: Do Provedor ao Usuário Final
O gerenciamento eficaz e eficiente do conhecimento promove efeitos benéficos em cascata, impactando positivamente toda a cadeia de serviços:
Para o Provedor de Serviço:
- Escalar a capacidade de atendimento sem a necessidade de aumentar o número de postos de trabalho;
- Reduzir drasticamente os riscos de burnout na equipe;
- Minimizar a ocorrência de erros repetidos;
- Preservar a memória técnica e otimizar os ciclos de treinamento.
Para o Cliente:
- Maximização do valor e melhoria contínua do desempenho da organização;
- Identificação proativa de oportunidades de melhoria nos serviços prestados;
- Fortalecimento de resultados duradouros baseados na transparência.
Para o Usuário:
- Jornadas mais fluidas e significativas (melhoria de UX);
- Resolução ágil de necessidades (incidentes ou requisições) através do autoatendimento;
- Redução de atritos no consumo diário de tecnologia.
A Evolução Analítica: Dado, Informação e Conhecimento
O valor gerado pela Gestão de Conhecimento cresce exponencialmente à medida que as organizações avançam na integração de elementos corporativos e na relevância para o contexto (evoluindo de graus mais baixos para mais altos).
Podemos estruturar essa maturidade analítica em três estágios cruciais:
- Dados: Representam a base da curva, consistindo em fatos e números brutos que não possuem um significado intrínseco de forma isolada. No universo de infraestrutura e projetos de IoT, este estágio é exemplificado por coletas primárias, como a leitura de sensores.
- Informação: Ocorre quando os dados brutos são processados com contexto. Este nível operacional traz clareza tática ao responder perguntas práticas de negócio (como “quem”, “o que” e “quando”), tendo como exemplo clássico a estruturação de um relatório de vendas.
- Conhecimento: O topo da curva de valorização é alcançado quando a informação é combinada com a experiência aplicada. Representado pela expertise técnica, é este o estágio que efetivamente habilita a tomada de decisões estratégicas e a execução de ações assertivas.

Compreender e aplicar essa curva é essencial para líderes que buscam arquitetar soluções eficientes, garantindo que o volume maciço de interações na infraestrutura seja transformado em processos de negócio inteligentes e entregas de alto impacto. (Sugestão de SEO: Insira a imagem do gráfico “Dado > Informação > Conhecimento” aqui e adicione a tag Alt Text: “Gráfico de evolução analítica da ITIL: Dados, Informação e Conhecimento”).
A Gestão do Conhecimento na Cadeia de Valor da ITIL® 5
A prática de gestão do conhecimento apoia todos os fluxos de valor e pode ser utilizada em conjunto com qualquer outra prática suportando as etapas da Cadeia de Valor da ITIL® 5. O escopo abrange, mas não se limita a:
- Descoberta: Compreender as reais necessidades, resultados desejados e restrições.
- Design: Projetar serviços balanceando utilidade, garantia, capacidade, escalabilidade e segurança.
- Aquisição: Acessar ou adquirir recursos e componentes que sejam realmente aderentes.
- Construção: Integrar e desenvolver produtos e serviços com qualidade e prontidão.
- Transição: Mover serviços para produção de forma segura, garantindo que a equipe esteja preparada.
- Operação: Garantir a disponibilização e a capacidade de serviços a clientes e usuários.
- Entrega: Executar ações pré-acordadas de forma segura e eficiente, mantendo o relacionamento.
- Suporte: Responder a incidentes de forma confiável, capturando aprendizados e realimentando o KMDB (Banco de Dados de Conhecimento).
Conhecimento como Combustível (KCS em Tempo Real)
O conhecimento deve ser processado e utilizado no contexto dos fluxos de valor. Para evitar que seus artigos fiquem “mortos” dentro do sistema, é fundamental estruturar uma base focada em:
- Criação e captura;
- Fácil acesso à informação;
- Auditoria e revisão contínua;
- Arquivamento rápido de artigos obsoletos.
A Captura no Momento do Atendimento
Em muitos ambientes, o excesso de planejamento é um problema crônico que estagna iniciativas. O “momento ideal” de criar documentação nunca chega, enquanto produtos e serviços já estão sendo consumidos.
Em vez de esperar por uma janela de tempo livre, a estratégia mais eficiente (baseada em KCS – Knowledge-Centered Service) é aproveitar o momento do atendimento para registrar e melhorar o conhecimento em tempo real. Veja como isso funciona na prática:
- Ocorrência de um incidente: O usuário aciona a central de serviços informando uma dificuldade.
- Busca por solução: O primeiro passo do analista deve ser sempre buscar a solução na base de conhecimento.
- Resolução: O analista aplica a solução existente ou, se não encontrar, cria uma nova no processo de troubleshooting.
- Captura ou Atualização: Se foi necessário criar uma solução nova ou ajustar a existente, o próprio analista documenta isso no ato da resolução.
- Publicação e Reutilização: O conhecimento validado é disponibilizado na base para reuso imediato.
A grande diferença entre uma Central de Serviços estagnada e uma de alto desempenho é saber se o conhecimento gerado nesse fluxo está indo para a base ou ficando retido apenas na mente dos analistas.
Verdanadesk, Vera e KCS: Padronização e Inteligência Artificial
Um problema latente nas Centrais de Atendimento é a baixa qualidade na padronização de documentos, o que exige um enorme esforço cognitivo dos analistas para entender se um artigo é aplicável ou não.
O Plugin KCS presente no Verdanadesk permite a criação, adequação e gerenciamento ágil de modelos de conhecimento para garantir a padronização e usabilidade da informação.
O Modelo 6C da ITIL® 5
A ITIL® 5 nos apresentou o Modelo 6C, que mapeia as capacidades em que uma Inteligência Artificial pode auxiliar na Gestão de Produtos e Serviços Digitais.
A Vera, nossa agente de IA da Verdanatech, habilita o uso destas capacidades em instâncias do Verdanadesk, integrando a IA diretamente aos processos de Gerenciamento de Conhecimento para:
- Criar e curar artigos;
- Clarificar conteúdos técnicos complexos;
- Oferecer suporte cognitivo aos analistas;
- Realizar a comunicação fluida com os usuários finais.
Quanto custa o conhecimento? (E o preço da sua ausência)
Quando avaliamos as falhas nos ambientes de TI, precisamos entender qual dimensão exerce a maior pressão negativa. Muitos gestores buscam o uso da Inteligência Artificial apenas para apagar incêndios — focando exclusivamente no incidente.
Tentam suprir o déficit de informação em suas bases por meio do uso massivo de IA. Porém, ter mais tecnologia não garante a resolução do problema a longo prazo. Em quase todos os casos que encontramos no mercado, a raiz do problema (e do alto custo) está distribuída em duas dimensões principais:
- Fluxo de Valor e Processos: Fluxos de trabalho desenhados sem focar na melhoria contínua fazem com que a tecnologia replique a ineficiência humana — operando de forma rápida, mas ineficaz.
- Organizações e Pessoas: Gestores criando métodos em “salas fechadas”, sem comunicar ou treinar suas equipes adequadamente para trabalharem dentro dos novos modelos.
O uso de IA com pouco ou nenhum conhecimento documentado tem um custo altíssimo, demandando muito mais poder computacional e tempo. A verdadeira evolução da maturidade da Central de Atendimento não depende apenas de Informação e Tecnologia. A evolução está diretamente ligada à dimensão de Fluxo de Valor e Processos, que otimiza o uso dos recursos (humanos e artificiais) gerando retorno financeiro e redução de custos.
Como Swarming e Shift-Left Derrubam Silos e Agregam Valor
A criação de silos aumenta a distância entre os profissionais, retendo o conhecimento e impedindo sua circulação. As organizações frequentemente replicam em seus sistemas a mesma complexidade e barreiras que criam nas rotinas interpessoais.
Além disso, os clientes e usuários são impactados pela demora em atendimento, tal como relatamos em nosso post “Ticket não gera fila“.
O Modelo Swarming (Enxameação)
Em contraposição aos silos, a ITIL® 4 introduziu e a ITIL® 5 manteve o modelo de Swarming. A técnica coloca os analistas (de diferentes níveis) em uma mesma mesa, real ou virtual, focando de forma colaborativa na resolução de problemas complexos que atrapalham a entrega de valor. O Swarming acelera a resolução, promove a expansão do conhecimento de analistas em treinamento sem prejudicar o cliente, e pavimenta o caminho para o Shift-Left.
Shift-Left: A Solução Próxima do Usuário
Originalmente do desenvolvimento de software (testar o mais cedo possível), o Shift-Left na gestão de serviços significa mover a resolução de problemas para o nível de suporte mais próximo do usuário final — ou até mesmo promovendo o autoatendimento direto (Nível 0).
Essa transferência de conhecimento dos especialistas seniores para a linha de frente demanda mudança de paradigma e exige:
- Capacitação profissional contínua;
- Uma base de conhecimento viva, consistente e altamente relevante;
- Portal de autoatendimento (Catálogo de Serviços) intuitivo;
- Investimento em automação (RPA ou IA).
Benefícios do Shift-Left:
- Redução drástica de custos operacionais;
- Resolução imediata de chamados repetitivos;
- Especialistas focados em inovações, não em apagar incêndios;
- Elevação dos índices de satisfação do usuário.
Conclusão: O Conhecimento é a Sobrevivência do Seu Negócio
Investir em Gestão do Conhecimento é, na verdade, uma estratégia de sobrevivência para as empresas modernas. Trata-se de capturar, criar, disponibilizar, manter e até mesmo descartar conhecimentos obsoletos sobre o nosso negócio.
Embora o uso de IA traga um grande alívio e impulsione as capacidades iniciais (vide Modelo 6C), se ela não for aplicada sobre um Fluxo de Valor sólido que dissemine uma cultura de KCS, a tecnologia se traduzirá apenas em mais uma iniciativa frustrada e de alto custo, sem promover a verdadeira melhoria contínua.

